sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

TÉDIO



Ouvindo a canção que deu titulo a esse post, aqui estou, inspirado pela mesma, depois de encontrar um certo tópico na comunidade do Biquíni Cavadão no Orkut.

Queria postar aqui algo sobre os discos novos da banda, porém como ouvi apenas o de músicas inéditas, resolvi deixar para depois.

E impulsionado pelo que li, resolvi postar sobre esse tal tópico, que trata sobre uma grande polêmica surgida nesse último ano, com o surgimento de mais um “gênio” do funk brasileiro, o tal do Mr. Catra.

Confesso que por detestar tal estilo, nunca tinha ouvido nada desse suposto “cantor”, mas após ver o tópico me senti tentado a conhecer, e sem nenhuma surpresa, descobri que não passava de lixo, assim como a maioria dessas músicas.

Porém o que nos chama a atenção não é a música em si e sua letra “maravilhosa”, mas sim sua melodia: UM PLÁGIO DESCARADO do clássico do Biquíni Cavadão.

Não sei o que dói mais. Saber que aproximadamente duas décadas depois de escrita, tal música pôde ser tão deturpada e desmoralizada como foi pelo tal funkeiro.

Dói ver que versos como: “Sentado no meu quarto o tempo voa, lá fora a vida passa, e eu aqui à toa, Eu já tentei de tudo mas não tenho remédio pra livrar-me deste tédio”

Viraram a impublicável: “Na 4 por 4 a gente zoa, Wisky e Redbull, quanta mulher boa, o p** ficando duro, o bagulho tá sério, vai rolar um adultério”


É, é decepcionante ver isso, e mais ainda, saber que tal “pérola do cancioneiro popular" é parte de um projeto de um famoso e influente apresentador da TV Globo (gostaria de saber qual seria a reação dele e de sua senhora, Angélica, se um dia seus filhos virem a gostar de tal lixo. Pois é, no dos outros é refresco, hehe.).

E mais decepcionante é ver que tal lixo é consumido por uma grande massa de pessoas, que diariamente consomem como se fosse algo maravilhoso.


Em tal tópico, um fã da banda (Saulo Marino) entrou em contato com eles para saber qual a posição da banda sobre o assunto, e apesar de tal atrocidade à inteligência humana e à cultura nacional, é admirável a resposta dos integrantes da banda, como podemos ver na resposta deles ao Saulo:

"Saulo,

A música se chama adultério, "cantada" por um tal de mc catra. Ela faz parte de um disco do Luciano Huck e foi 'autorizada' por nós sim. Entendo sua dúvida e o texto abaixo talvez possa responder a sua dúvida.

Abraços

Bruno Gouveia

Então o que nos levou a liberar uma música como Adultério?

O Biquíni Cavadão (aliás, os autores: Bruno, Miguel, Álvaro e Sheik) não quis se colocar como instrumento de censura, e sim da liberdade de expressão, algo hoje tão banal e que por duas décadas (de 1964 a 1984) fez gente morrer lutando por ela. Pode ser ridículo ouvir Adultério mas, por mais tenebrosa que seja esta versão, isto é democracia. O contrário disso é, por exemplo, quererem tirar o site YouTube do ar como aconteceu recentemente com uma modelo.No fim das contas, não 'liberamos'. O que fizemos foi 'não proibir, mesmo achando a versão. horrível e de péssimo gosto."Posso não concordar com suas palavras mas defenderei até o fim o direito de você dizê-las" da dizia Voltaire.

Continuamos com nossa mesma filosofia: música não se faz com a bunda. No entanto, esta opinião nossa tem que ser ouvida, entendida e a decisão caberá a cada um. Se tem gente achando que o cérebro funciona melhor ouvindo Adultério e sua letra 'maravilhosa', apenas lamentamos. Não podemos, entretanto, ser paternalistas, proibindo as pessoas de ouvirem o que achamos que pode ser ruim para elas.Muitas vezes isto é o que faz com que elas, aí sim, queiram ouvir. E num país famoso por transformar polêmicas em sucesso, temo que a proibição pudesse levar a um fenômeno ainda maior, com divulgação da música via internet, entrevistas do coitado em programas sensacionalistas dizendo-se uma vítima etc...Temos mais é que ignorar certos acontecimentos para que os funks ladrem mas a caravana passe.Os fãs do Biquini tem o direito de se manifestar sim. Liguem pra radio e digam o que acham da música Adultério caso ela toque. Reclamem ou ignorem e logo esperamos que esta moda passe.Quanto a nós, manifestaremos o que nos agradada nos shows da banda tocando nossas canções e o que mais gostamos de ouvir e tenho certeza que os fãs não se decepcionarão. Jamais tocamos Adultério no show. Sempre falamos mal do funk de mal gosto (nada tenho contra o funk em si, mas sim contra atoladinhas, pocotós, tapinhas e congêneres). Irônico pensar que foi justamente do Biquini que fizeram uma versão. Mas este é um país livre, ou ao menos, lutamos para que seja - ainda que às vezes, para isso, doa na nossa própria carne.Certos de contar com a compreensão de nossos fãs, agradecemos aqui o apoio dado a nós.

Viva o Rock Nacional

Bruno Gouveia"


Sim, admirável e mais do que inteligente a resposta da banda.
Por pior que pareça, é sensato não tomar uma decisão contrária, o que poderia causar uma massificação ainda maior da mesma, sem contar com o atraso no processo evolutivo da censura brasileira.

Isso se o mesmo evoluiu, visto que, alguns anos atrás, ela voltou à ativa, de forma bastante inconseqüente.

Em 2000, a banda gaúcha “Bidê ou Balde” lançava seu primeiro disco, Se Sexo é o que Importa só o Rock é Sobre Amor, e em tal disco, uma música chamava a atenção pela letra, (lembro-me até hoje da primeira vez que vi a banda, no programa do Jô, cantando "Melissa" e "E por que não?")

Tal música, “E por que não?” virou um dos hits da banda, e chegou a ser tocada em algumas rádios especializadas.

Porém a polêmica viria 5 anos depois, com o projeto “MTV Acústico Bandas Gaúchas”, e a exposição em massa via rede nacional.

De repente, algumas entidades começaram a criticar e tentar censurar a banda, dizendo que a música tratava de pedofilia e incesto.

A banda, inconformada, em pleno século XXI, teve que, na justiça, defender sua liberdade de expressão.

Porém, infelizmente, o caso de “Tédio” não entra nesse mérito.

Então por que a citação??

Simples. Para mostrar que apesar de vários anos, continuamos vivendo em uma repressão ética e moral, com censura e falta de liberdade de expressão, porém, agora, de forma disfarçada.

É bom ver que ainda temos vida inteligente no mundo da música. Pessoas que se preocupam em expressar sua opinião da forma que melhor sabem, e apesar de serem vitimas de algumas “atrocidades”, como no caso do Biquíni Cavadão, conseguem ser sensatas a ponto de preferirem manter a ética e o ideal de uma sociedade realmente democratizada, onde todos têm sua liberdade de expressão.

E vale lembrar que tais releituras não são exclusividades do funk, mas também vemos muito disso em musicas eletrônicas.

Clássicos como “Another brick in the wall”, “Smells like teen spirit” e “Seven nation army”, músicas atemporais, que resistem às novas modas e representam suas respectivas gerações (exceto pela do White Stripes que ainda é muito recente para que possamos tirar alguma conclusão), são vítimas também, da falta de criatividade dos tais “músicos”.

Nada contra a musica eletrônica em si, mas é fácil demais pegar uma música pronta, retirar de seu contexto original (seja ela politizada como a do Pink Floyd ou não), colocar uma batida mecânica, e fazer sucesso.

Porém, é essa a realidade em que vivemos.

Uma época de desmoralização e desvalorização da ética, dos valores culturais, sociais, em um país em constante desenvolvimento, mas que, por tal “desenvolvimento” desenfreado e inconseqüente, muitas vezes é vitima de si mesmo em causar conseqüências reversas às desejadas.

Um país, que mesmo após muitos anos de repressão, de falta de liberdade de expressão, continua com esse fantasma.

Em pleno século XXI somos obrigados a ver a censura, que supostamente havia acabado há mais de 20 anos.

Vemos a desmoralização do homem, a banalização do corpo, a desvalorização da arte.

E consumimos isso. Através dos BBBs, “Pânicos”, novelas, "Malhação", alguns enlatados norte-americanos, revistas sem conteúdo, RBD, entre outros.

Através destes, fazemos com que deixemos de evoluir, como humanos, como sociedade, como nação.

E fazemos também, através da arte.

Através de supostas “músicas”, como a tal “Adultério”.

Pois é, ainda prefiro continuar a me sentir um Zé Ninguém, e ouvir:

“Vejo um programa que não me satisfaz. Leio o jornal que é de ontem, pois pra mim tanto faz. Já tive esse problema, sei que o tédio é sempre assim, e se tudo piorar, não sei do que sou capaz”.

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(Gostaria de deixar aqui um cumprimento ao Saulo pela sensatez, e pelo tópico na comunidade, assim como para a o Biquini Cavadão por tal atitude. Para comentar no tópico, acesse:

http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=78963&tid=2524113573622974699&na=1&nst=1)

Em breve postarei algo sobre os CDs novos da banda.

7 comentários:

Sydnei Melo disse...

Filipe, algumas considerações:

Tb julguei bastante sensata a posição do Bruno Gouveia sobre o plágio da musica do BC. Ora, existe um leque de valores que se modifica (ou se perde, se pensarmos melhor) ao longo da dinâmica social e histórica que implicam a criação de novos gostos e de novas expressões de arte. Porém, não podemos nos esquecer que o advento do industrialismo moderno tb trouxe a arte para o arsenal industrializado.

Em tempos assim, mudar uma ótica de produção musical como esta exige não uma posição dura e censitiva, mas sim uma transformação dos valores construídos que se agraciam com estas bizarrices que ouvimos.

Digo bizarrice me referindo a essas musicas determinadas. Afinal, a batida do funk carioca surge em um contexto muito mais diferenciado, com um forte sentido político e que denunciava a existência da miséria e pobreza nas favelas do Rio. Se hoje ela se encontra neste caos, tal se entende principalmente pelo apossamento industrial e de reprodução mercadológica e ideológica do nosso sistema de valores econômicos e políticos sobre a arte.

Talvez isto tb se exemplifique no fato de alguns artistas serem mais censurados que outros. Se o funk do Mc Catra não é censurado, pq o Bidê ou Balde sofre a repressão? O que há de diferente do Bruno e Marrone? E das Velhas Virgens? E o Cazuza, então?

Sobre as "releituras", elas não são um problema. As releituras inclusive podem ser bastante benéficas. Creio que a musica eletronica, neste sentido, não exerce papel negativo. Têm idéia de como esse formato musical conseguiu trazer clássicos da música que talvez só se restringissem aos círculos do rock? Como vc bem falou, isto é uma releitura, algo muito diferente do plágio promovido pelo nosso cancioneiro do funk em relação à musica do BC. Não podemos confundir resgate e modernização com deturpação e desvalorização da obra. Afinal, assim como a cultura (e como elemento dela), a arte possui dinâmica e liberdade de transformação.

Gostei muito do post, meu querido!

Abraço

Mateus disse...

Caramba... onde o mundo legal dos anos 70 e 80 onde tudo era rock ou punk e os desenhos da Hanna Barbera eram o sucesso ???

CADÊ AQUELE MUNDO LEGAL !!!!!

Felipe disse...

Sydão..

valeu pelo comentário, e pela grande análise.

quanto às releituras da música eletronica, citei para frisar uma outra questão, a da indústria cultural.

Nada contra algumas releituras, nem contra o mundo da música eletronica (apesar de nao apreciar, respeito, e conheco muita gente que gosta disso, inclusive DJs)..
Porém o que acho incoerente é o fato de pegar uma música, tirar ela de seu contexto inicial, e tranformá-la através de uma batida forte e mecanizada (como acontece com another brick in the wall, cujo contexto é totalmente politizado e possui uma forte crítica social).

e apenas citei esses exemplos, porém nao é exclusividade do rock, mas também do pop (a arrasa quarteirões "umbrella" por exemplo), e até trilhas sonoras (como o tema do "piratas do caribe").

Creio que talvez seja benéfico, depende do caso, porém como citei antes, é tirar algo de seu contexto, e utilizá-lo sem respeitar isso..

Quer outro exemplo bastante comum?? a famosa música do "video show".
Tal música, feita por um tal "Michael Jackson" é mais conhecida pelo programa global, do que pelo próprio autor. Mas e qual o contexto da musica? por que ela foi escrita?

foi nesse sentido que citei os exemplos sydo..

no mais, novamente agradeço o comentário.

Sydnei Melo disse...

fmz =D

Israel Oliveira dos Santos disse...

Felipe...quando estiver no tédio lembre-se

"Tea with me and I book your face"

Muito cult teu blog, cara!
Me sinto um retardado quando falo de música com você! Não liga minha ignorância ante aos fatos culturais expostos tão minuciosamente em teu blog! Te dou todo o apoio a continuar essa sua pesquisa rumo ao antro musical do século XXI!
Se quiser, tira uma idéia com o Carlos a respeito de Raul Gil que ele manja, ok?

Abraço

Israel Oliveira dos Santos disse...

Felipe...quando estiver no tédio lembre-se

"Tea with me and I book your face"

Muito cult teu blog, cara!
Me sinto um retardado quando falo de música com você! Não liga minha ignorância ante aos fatos culturais expostos tão minuciosamente em teu blog! Te dou todo o apoio a continuar essa sua pesquisa rumo ao antro musical do século XXI!
Se quiser, tira uma idéia com o Carlos a respeito de Raul Gil que ele manja, ok?

Abraço

Eric Vanucci disse...

E aí, nosso caro oráculo da música? Sabe o que eu queria muito ver nesse blog? Algo concreto sobre o OZZY NO BRASIL! Se souber de algo, me avisa, Felipe! Abraços!